As crianças desprovidas de meio familiar

As crianças desprovidas de meio familiar

A criança forma um grupo social do qual a sua sobrevivência necessita de uma atenção por parte da sociedade e do Estado, para que sejam satisfeitas as suas necessidades de sobrevivência, protecção e enriquecimento da sua vida. Por vezes, a criança é maltratada e encontra-se em situação de risco que se posiciona no limite entre o que pode acontecer e o que acontece de facto. Os maus-tratos são algo que acontece propositadamente, podendo ter um carácter contínuo, não sendo possível determinar com exactidão onde inicia um e termina o outro.

As crianças desprovidas de meio familiar foram impedidas de receberem uma educação normal importante para despertar as suas verdadeiras qualidades e satisfazer as suas carências afectivas não lhes sendo oferecida uma educação em família, o que condiciona o desenvolvimento harmonioso da sua personalidade. São, de facto, crianças sobre as quais a família exerce as mais variadas formas de maus-tratos.

Muitos menores em risco encontram-se entregues a si próprios, sendo completamente negligenciados pelos pais. Muitos pais dizem coisas maravilhosas aos filhos mas depois têm péssimas reacções na frente delas. Com o passar do tempo cria-se um ambiente sem afecto. Quando a criança não tem afecto e protecção gera sintomas de solidão, dificuldades de diálogo, tendências agressivas, auto punição, estados de ansiedade, angústia, incapacidade de serem responsáveis nas acções, fixação oral e problemas no desenvolvimento intelectual.

Estas crianças são, geralmente, provenientes de famílias que carecem de uma estrutura minimamente sólida, sem hábitos de higiene, saúde e alimentação, oriundas de uma situação económica bastante precária, caracterizada por emprego precário ou pela falta de emprego. Estas situações levam à desestruturação familiar, privando a criança de um lar familiar, levando-as ao abandono, à delinquência infantil ou juvenil e esperando que alguma instituição lhes conceda assistência.

Em suma, a desorganização familiar é um dos grandes motivos pelos quais as crianças se encontram desprovidas de meio familiar. Esta desorganização advém de factores como a convivência da criança com pais alcoólicos, toxicodependentes e com comportamentos associados à prostituição, abandono físico e emocional, com situação económica debilitada, internamento temporário, negligência, orfandade, quadro psicopatológico, trabalho infantil e prática de factos qualificados pela lei como crime. São, de um modo geral, crianças e adolescentes sujeitos a inúmeras privações, incluindo os vínculos afectivos, a falta de privacidade e demais actividades essenciais ao próprio conhecimento do mundo e ao meio que as rodeia.

Estes menores em risco são pessimistas perante o seu futuro e encaram-no como apenas mais uma palavra pertencente ao seu léxico. Com uma grande percentagem de pais ausentes, mas com muitos “irmãos” presentes, desejam incansavelmente regressar a um seio familiar (família de acolhimento ou adopção) com o coração aberto cheio de amor para dar e receber.

Neste sentido, à criança desprovida de meio familiar, muitas vezes retirada à família, é definido um projecto de vida que pode passar pelo acolhimento familiar, adopção ou até mesmo a institucionalização.

Com tudo isto, procura-se dizer que a separação da criança do meio familiar desencadeia perturbações afectivas que se repercutirão ao longo da sua vida, perturbações quer ao nível emocional, físico e intelectual, quer ao nível do abandono afectivo.

As crianças em risco desprovidos de meio familiar aprendem a viver em auto governo o que as ajuda a viver em solidariedade, aprendizagem de valores, amizade, participação e respeito na sociedade, permitindo-lhes uma formação educativa positiva.

Todos eles trazem a sua história, na sua alma um passado semelhante ao de muitos outros, que a todos, de uma forma ou de outra, tocou, marcou e/ou doeu.


 

Bibliografia:

Canha, Jeni (2003). Criança maltratada. Coimbra: Quarteto.

Martins, Ernesto Candeias (2004). O Projecto educativo do Padre Américo: o ambiente na educação do rapaz. Lisboa: Temas e Debates.

 

Sofia Andrade

In Jornal "A Noz"